Nutrição

Comer ovos faz aumentar os níveis de colesterol?

Talvez um dos maiores medos da nutrição nos últimos tempos seja o colesterol, fruto da propaganda feita pala indústria farmacêutica produtora de estatinas na década de 90. Não é de estranhar que a classe de medicamentos a que as estatinas pertencem (para reduzir o colesterol) representa a classe de fármacos mais vendido de todos os tempos.

No fim de contas, nos últimos 30 anos, sempre que as guias que os médicos usam para receitar o uso de estatinas sofre uma atualização, os valores de colesterol apertam de tal maneira que, neste momento, a maior parte da população está apta para fazer tratamento.

Mas porquê reduzir o colesterol se este álcool é na realidade muito importante para a vida?

No final da década de 40 começaram a estudar (estudo de Framingham) associações entre as doenças e biomarcadores (análise ao sangue) e observou-se uma associação positiva entre o colesterol (em indivíduos “jovens”, faixa etária onde a doença é menos representativa) e as doenças cardiovasculares.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o enfarte do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC), que pertencem ao grupo das doenças cardiovasculares, são a principal causa de morte (provocada por doenças), de tal modo que têm vindo a aumentar ao longo dos anos apesar dos inúmeros esforços para as travar.

Juntando isto ao facto de as placas (ateromas) nas artérias serem compostas em parte por colesterol, e de o colesterol associado às lipoproteínas (LDL, HDL etc.) estar diretamente relacionado com a dieta, é normal que os alimentos ricos em colesterol acabem por ficar com uma má reputação.

O que é que um ovo inofensivo tem a ver com isto?

Um ovo grande contém 70% do colesterol recomendado diariamente! Apesar deste valor diário recomendado sem qualquer apoio científico, a literatura indica-nos que comer vários ovos diariamente não influencia o colesterol total, HDL ou LDL na maioria da população.

Mesmo na pequena parte da população “sensível” ao colesterol dietético, a estrutura destas lipoproteínas (HDL, LDL) melhora. Estas lipoproteínas são muito complexas (transportam enzimas, proteínas de fase aguda, etc.) e em caso de doenças metabólicas ou hormonais a sua estrutura é alterada, o que as transforma em compostos nocivos. Além deste beneficio estrutural, o ovo é uma excelente fonte de vitaminas, minerais, colina e proteína de boa qualidade, tudo aquilo que um praticante de atividade física não pode prescindir.

os níveis de colesterol

World Health Organization (WHO)
Tabela 1 As 10 principais causas de morte a nível mundial.

O colesterol do organismo é em grande parte de natureza endógena (é o nosso corpo que o produz), com o colesterol dietético representando uma pequena fatia. Se há uma ingestão acentuada de colesterol, o nosso corpo reduz a síntese, e vice-versa.

Não podemos esquecer a pequena fatia da população “sensível” à ingestão diária de vários ovos, chamados de hyperresponders. Será que os benefícios estruturais não são suficientes para compensar os efeitos “nocivos” do aumento do colesterol associado às LDL e HDL?

Antes de mais, é importante salientar que o enfarte do miocárdio ou o AVC isquémico geralmente não advêm de uma estenose da artéria (encolhimento da artéria onde passa o sangue) provocada pelo acumular de colesterol na placa (ateroma), mas sim quando esta placa rompe.

A estabilidade da placa nada tem a ver com o tamanho da placa, aliás, pelo contrário. A acumulação de macrófagos na íntima (segunda camada das artérias onde se forma a placa), que apanha as LDL, sucede por uma sinalização celular, e não porque um monócito quis passar pelo endotélio (primeira camada de células das artérias) e ficar lá a fazer uma pausa.

Esta sinalização parece ser mediada em parte por forças hemodinâmicas (forças exercidas pelo sangue na parede da artéria) concomitantemente com certas moléculas, entre elas as LDL e HDL. Mas não são lipoproteínas comuns, são lipoproteínas que sofreram modificações físicas e químicas devido a problemas metabólicos e hormonais.

Estes problemas de saúde levam, simultaneamente, a um aumento do colesterol (alteração de vias metabólicas de produção e/ou clearance), embora isto nem sempre aconteça, pois podemos perfeitamente ter valores normais e, no entanto, sermos diabéticos.

Conclusão

Tudo isto para dizer que o colesterol alto pode ser sinónimo de que alguma coisa está mal, e vice-versa. Se um dia verificares que tens o colesterol alto (ou muito baixo) nos testes de farmácia ou nos rastreios, fala com o teu médico de família, pois poderás ter alguma doença não diagnosticada. Até podes ser perfeitamente saudável, mas teres valores elevados de colesterol (normalmente os valores de HDL e triglicéridos estão normais, embora o colesterol total e associado às LDL estarem altos).

E não fiques stressado com os ovos e o seu colesterol, pois o stress pode levar a que a placa se rompa e, consequentemente, a um AVC isquémico ou a um enfarte do miocárdio. Não é de surpreender que nos dias seguintes a uma derrota da seleção haja uma maior admissão nos hospitais por enfarte do miocárdio nesse país.

O ovo cozido é um excelente alimento que deve ser incorporado na dieta, mesmo nas pessoas hyperresponders, com benefícios para praticantes de musculação ou para quem queira simplesmente ter uma dieta equilibrada.

“The anti-fat, anti-cholesterol fad is not just foolish and futile, however. It also carries some risk.”

American Medical Association, em 12 de Outubro, 1962



Eduardo Machado

Eduardo Machado

Escritor

Chamo-me Eduardo Machado, sou Licenciado em ciências da nutrição pelo Instituto Universitário de Ciências da Saúde e Mestre em nutrição clínica pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz. Sou apaixonado pelo desporto, contando com mais de 10 anos de treino em várias modalidades, como o powerlifting e kickboxing, e a trabalhar há mais de um ano no futebol profissional.